Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR
27/07/2011 | 10h43 | Violência
27/07/2011 | 10h43 | Violência
Invincible Pictures/ divulgação
Sem assistir a uma cena sequer do filme, um grupo composto por pelo menos 15 pessoas — entre elas marqueteiros, políticos, advogados e juízes — conseguiu suspender por tempo indeterminado, em todo o Rio de Janeiro, a exibição do longa-metragem A Serbian film — Terror sem limites, a primeira e polêmica obra do diretor sérvio Srdjan Spasojevic. A medida causou indignação no meio cinematográfico e levou 150 pessoas às portas do Cine Odeon, no último sábado, para protestar contra o veto. O filme, que mistura doses cavalares de violência com necrofilia, estupro de um recém-nascido e incesto envolvendo uma criança de 5 anos, conta a história de um ator pornô que, em seu último trabalho, é drogado e levado a realizar diversas atrocidades. A Serbian film estreia em circuito nacional no dia 5 de agosto, mas o Rio pode ser o único estado a não exibir a fita por força de uma liminar judicial, que acusa a obra de incitar a pedofilia.
A onda do "eu não vi, mas proibi" começou no início da semana passada. Depois de receber diversos telefonemas de clientes do banco que ameaçavam cancelar suas contas caso a Caixa Cultural mantivesse na programação do festival de filmes fantásticos RioFan o longa-metragem de terror que havia anunciado, o superintendente de comunicação e marketing, Clauir Luiz Santos, não hesitou. Determinou o cancelamento da sessão na mesma hora.
"Não quero entrar no mérito do filme, nem assisti a ele", diz Santos. "Mas somos uma empresa que precisa ter cuidado ao relacionar sua imagem com um filme que trata de pedofilia. É um tema pesado, e achamos melhor cancelar a exibição."
Também sem ter assistido ao filme — que está vetado na Noruega, rendeu um processo ao diretor do festival que o exibiu na Espanha, e só foi liberado no Reino Unido após 49 cortes —, o ex-prefeito Cesar Maia e seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia, acionaram na semana passada uma equipe de dez advogados para que, em nome do Democratas (DEM), partido que integram, fosse movida uma ação civil pública na Justiça do Rio para impedir a exibição da fita, sábado passado, no Odeon (sessão especialmente agendada depois do veto da Caixa).
"Saber que há cenas de estupro de crianças e até de um recém-nascido me levou a pedir a liminar que determinou o recolhimento da fita", diz Cesar Maia. "Isso (o filme) fere os valores das famílias e o Estatuto da Criança e do Adolescente."
Até esta terça-feira, no entanto, nem Cesar nem Rodrigo Maia haviam assistido a A Serbian film. Reconheciam ter recorrido à via jurídica apoiados apenas nas leituras feitas sobre o assunto na internet.
A equipe de dez advogados liderados pelo especialista em Direito Constitucional Victor Travancas redigiu a ação civil pública também sem ter assistido ao filme, assim como a juíza Katerine Nygaard, que acatou a peça e assinou uma liminar determinando a suspensão da obra e seu recolhimento para análise judicial.
"É nobre advogar contra a pedofilia", diz Travancas. "A liberdade de expressão acaba quando começa a pedofilia. Eu não vi o filme ainda porque não recebi uma cópia, e acho que não preciso ver."
O distribuidor de A Serbian film no Brasil, Raffaele Petrini, conta, no entanto, que, na noite de sábado, quando um oficial de justiça se apresentou para proibir a sessão do Odeon, ele ofereceu uma cópia da fita — um DVD legendado — e uma sessão exclusiva tanto para Travancas quando para a Justiça.
"Simplesmente sequestraram a película sem ter como analisá-la. Eles não têm um projetor", reclama Petrini. "Tentei derrubar essa liminar, mas não consegui."
Também sem ter visto o filme, a desembargadora Gilda Carrapatoso — que estava de plantão na mesma noite — negou o pedido feito pelo distribuidor.
A ação corre em segredo de justiça na 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, sem prazo de desfecho. Até lá, o filme não pode ser exibido sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
A polêmica em torno da suspensão de A Serbian film — Terror sem limites teve um efeito imediato: nos últimos dias, a obra, que só tinha sido vista por cerca de 250 pessoas no Brasil (nos festivais Fantaspoa, de Porto Alegre, e Lume de Cinema, de São Luís), subiu na lista de downloads ilegais. Até a tarde de terça-feira, a versão em português da legenda do filme, falado em sérvio, havia sido baixada 3,621 mil vezes só no site Legendas.tv, um dos mais acessados do país.
"Com essa polêmica, no lugar de o filme ser exibido sob controle, dentro de salas apropriadas, só para maiores de 18 anos devidamente informados, agora ele pode estar sendo visto até por crianças", reclama Marcelo Mendes, diretor-presidente da EBCine, dona do Grupo Estação, que inclui o Cine Odeon.
João Pedro Fleck, diretor e produtor do Fantaspoa, um dos poucos que assistiram ao longa, faz uma ressalva: "Exibimos em Porto Alegre a versão com cortes, lançada na Inglaterra, mas eu também vi a versão original, que passaria no Rio. Nenhuma das duas defende a pedofilia. As cenas não passam de insinuações."
Incomodado com a confusão em torno do filme, que lhe custou mais de US$ 10 mil, o distribuidor Raffaele Petrini também nega que a produção faça apologia à pedofilia. "Todos os comentários contrários ao filme partem de pessoas que não assistiram a ele", defende. "A peça do advogado do DEM parece uma mistura de informações da Wikipedia com matérias de jornal... Não existem cenas pornográficas entre crianças e adultos nem entre adultos. Serbian é um filme de terror, feito para chocar e causar repulsa. Eu nunca compraria os direitos de um longa que desse aval à pedofilia. Mas, para os amantes do terror, é uma obra inovadora: traz um medo que nos abala, nos tira da mesmice."
Críticos enxergam censura no veto
O veto — temporário, ao menos — à exibição de A Serbian film no estado do Rio de Janeiro foi visto como censura por parte da comunidade cinematográfica, que correu às ruas no último sábado, quando o longa seria mostrado pela primeira vez em terras fluminenses, para protestar contra a liminar da Justiça que recolheu as cópias.
Para críticos e cineastas, a suspensão é preocupante. “Artistas não podem ficar tolhidos, pensando se vão ser censurados quando produzem suas obras. É um retrocesso”, afirma Paulo Caldas, diretor de Deserto feliz (2007), que fala sobre a exploração sexual de meninas.
A censura, banida do Brasil pela Constituição de 1988, proibiu e adulterou centenas de filmes no passado. O último caso foi em 1986. O então presidente José Sarney proibiu a exibição de Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard. O roteiro, que em uma de suas histórias paralelas narra a saga da estudante Maria, namorada do taxista José e que espera um filho divino, chocou grupos religiosos.
Antes disso, durante a ditadura, uma série de filmes políticos foram censurados, como Z (1968), de Costa-Gravas, e Queimada (1969), de Gillo Pontecorvo. Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, só foi liberado na abertura política, no fim da década de 1970, mas com uma bolinha preta que cobria as imagens de nudez.
"Esse recurso atrapalhava a concentração, mas não escondia nada direito. Involuntariamente, tornava-se engraçado. Outro filme que sofreu censura foi O último tango em Paris (produção de 1972, de Bernardo Bertolucci) ", lembra o crítico Gilberto Silva Júnior.
Organizador do RioFan, Fernando V. Toste diz que cerca de 80% das produções que passaram neste ano no festival “podem provocar reações adversas”, em pessoas sem “equilíbrio emocional e psíquico adequados para suportar evidências de desumanidade”, conforme o texto escrito em liminar que rejeitou o pedido de liberação do longa feito pelo distribuidor. "E filmes que entraram no circuito comercial, como a série “Jogos mortais”, não teriam vez", afirma Toste.
Para o crítico Pedro Butcher, do portal Filme B, pesa o fato de tratar-se de uma obra de terror. "É um gênero vítima de preconceito. Produções que passaram em Cannes, como A fita branca (de Michael Haneke, que venceu a Palma de Ouro em 2009), não tiveram essa repercussão negativa", diz Butcher. Ele acrescenta que “qualquer tipo de censura a obra de arte é abominável” e compara o caso a Saló (1976), do italiano Pier Paolo Pasolini, que foi vetado no Brasil. "Um relata as atrocidades na guerra da Sérvia, o outro expõe os horrores do fascismo."
Já o cineasta Eduardo Escorel afirma considerar “descabida” a iniciativa do DEM, partido que entrou na Justiça sem ter visto A Serbian film. Mas faz uma ressalva: "O ideal seria que a liberdade de expressão fosse um princípio primordial e absoluto, não sendo sequer admissível haver ações judiciais dessa natureza nem decisões restritivas a toda e qualquer forma de livre manifestação. Como estamos longe, porém, de viver em um mundo ideal, constituído apenas por instituições e indivíduos responsáveis, devemos reconhecer os benefícios de existirem instâncias às quais possam recorrer aqueles que considerem que suas crenças e valores tenham sido ofendidos, agredidos ou desrespeitados", afirma.
Por João Paulo Gondim, Luiz Felipe Reis e Cristina Tardáguila, da Agência O Globo






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