Andréia Ferrarezi: “Me sinto em cima de um trono, soberana”

Aos 68 anos, a transexual mais velha a realizar a cirurgia de mudança de sexo pelo SUS conta sua trajetória e a emoção com a nova vida

Por Felipe Rousselet


Andréia no Ambulatório para Saúde Integral de Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids (Foto: Felipe Rousselet)

Natural de Borborema, interior de São Paulo, e criada na capiatal, a transexual Andréia Ferrarezi, de 68 anos, é a paciente mais velha a realizar um cirurgia de redesignação sexual (troca de sexo) pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Quando criança, a cabeleireira aposentada foi registrada como Orlando. Andréia aguardava a realização do procedimento desde 1979, quando recebeu o diagnóstico de transexualidade. Na época, o SUS não realizava a cirurgia, e a família de Andréia não possuía recursos para arcar com o preço cobrado por médicos particulares. Em 2008, o então ministro da Saúde, José Gomes Temporão, assinou uma portaria que autorizou o SUS a realizar o procedimento.

Andréia foi acompanhada pela equipe médica do Ambulatório para Saúde Integral de Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, pioneiro no país, e foi operada no último dia 27 de fevereiro no Hospital das Clínicas. De acordo com o Dr. Francisco Tibor Dénes, médico urologista e chefe do setor de Identidade de Gênero – Transexualismo do HC, a cirurgia e o período pós-operatório foram bem-sucedidos

Antes de realizar a cirurgia, Andréia passou por acompanhamento multiprofissional que envolveu psiquiatras, endocrinologistas, clínicos gerais e sessões de psicoterapia individual e em grupo. O SPressoSP entrevistou Andréia uma semana após a cirurgia.

SPressoSP – Como você descobriu sua transexualidade?

Andréia Ferrarezi – Eu descobri isso desde a primeira infância. Descobri não, descobriram. Aos 13 anos eu já coloquei a primeira roupa de mulher. Foi nessa época que eu assumi toda a minha transexualidade, e a família acabou aceitando. Eu tenho o laudo (de transexualidade) desde 1979 e esperei todo esse tempo até que resolveram me operar.

SPressoSP – Como foi a sua vida durante a escola?

Andréia – Na escola foi muito difícil. Você tem que lidar com o assédio, que era muito, lidar também com o preconceito da mãe dos outros alunos, com o bulling. Foi uma vida difícil. Eu conclui até a terceira série ginasial e depois tive que sair para trabalhar. A única profissão que abraça todos nós é a de cabeleireira. Não existe o preconceito, aliás, eles preferem quando a pessoa é “meio diferente”.

SPressoSP – Como foi ser um transexual quando surgiu a AIDS ?

Andréia – Nesse tempo eu morava em Vitória, Espírito Santo. A AIDS estava muito forte. Enterrei muita gente e dei muitos conselhos para as pessoas não se excederem. Eu não seguia aquilo que muitas faziam, aquela promiscuidade. Tive um companheiro com quem fiquei dez anos e foi o que me livrou da AIDS, pois o assédio era muito.

SPressoSP – Você já teve alguma relação sexual com mulheres?

Andréia – Nunca tive um gracejo sequer com mulher. Tinha verdadeira aversão à mulher. Não tinha a mínima atração. Até um médico do Hospital das Clínicas me perguntou sobre isso, e eu respondi que se eu gostasse de mulher não estaria lá.

SPressoSP – Qual foi a mudança na sua vida quando você foi diagnosticada como transexual?

Andréia – Aquilo pra mim foi o marco da minha salvação como pessoa. Até então as pessoas achavam que eu era travesti. E transexual não é travesti. Eu não tenho nada contra travesti, mas eu ficava injuriada quando alguém me taxava de travesti. Eu queria ser tratada como mulher. E os eventuais parceiros que se aproximassem de mim, se me olhassem como travesti, eu já nem queria mais nada.

SPressoSP – Como foi descobrir que no sistema público de saúde, em 1979, não seria possível realizar o tratamento e a cirurgia?

Andréia – Procurei médicos particulares. Vou até dizer o nome. Eu procurei o Dr. Roberto Farina, renomado cirurgião plástico, que tinha consultório na Avenida Rebouças. Ele cobrava um preço absurdo. Procurei o Dr. Djalma, mas ele também cobrava um preço exorbitante. Quer dizer, só faria a cirurgia quem tivesse um poder aquisitivo muito grande. Mas, mesmo assim, eu não troco o tratamento que se dá no Hospital das Clínicas pelo desses médicos particulares. Eles te operam e mandam você embora. Não tem um tratamento adequado. No HC fiquei 11 dias internada. Além da eficiência do tratamento, existe um carinho. Eles são anjos, a equipe que me operou e os enfermeiros. Não vou esquecer nunca do tratamento que eles me deram.

SPressoSP – Como foi a reação das pessoas próximas quando souberam que você faria a cirurgia?

Andréia – A maioria falava que se estivesse no meu lugar não faria. Falavam que eu não ia aguentar. Eu respondia que quem não aguenta é você, mesmo com menos idade que eu. Eu aguento. A força está na mente. Se tivesse que fazer outra cirurgia igual eu faria. Não tenho dor nenhuma. Os pontos já caíram todos. Estou como se já tivesse nascido assim.

SPressoSP – Como foi o dia da cirurgia?

Andréia – Eu tive uma tranquilidade tão grande. Depositei uma confiança tão grande nos médicos que eu não fiquei nervosa. Fui serena para o centro cirúrgico. Foi tão eficiente, tão bem calculada a anestesia, que terminou a cirurgia e eu acordei. Sem traumas, sem problema de estômago, sem dor. Foi uma maravilha. Foi tão boa que os médicos me disseram que foi a melhor cirurgia já feita no HC. Inclusive na recuperação. Tenho uma saúde impressionante.

SPressoSP – Qual a importância da mudança do nome e do sexo nos documentos oficiais?

Andréia – A importância do nome no documento é que você resolve 50% da sua transexualidade. Os outros 50% são a cirurgia. A cirurgia é para você, e a mudança do documento é para o social. Quando eu não tinha o nome trocado, se eu ia procurasse algum serviço do estado, ou da prefeitura, eu chegava lá e me chamavam pelo nome masculino. Eu não respondia. Deixava me chamarem três vezes, aí eu chamava a pessoa e dava uma bronca para me chamar pelo nome feminino que estava escrito acima do masculino. Explicava que eu estava passando por um vexame com as pessoas sabendo que sou uma mulher com nome de homem. Tinham pessoas que faziam isso de propósito.

SPressoSP – Como foi a primeira vez que viu seu corpo após a cirurgia?

Andréia – Foi uma coisa maravilhosa. Muito marcante mesmo. Quando os médicos vinham, uns oito, e me deixavam nua, eu sentia a sensação de ser vista por um monte de homem. Quando cheguei em casa eu peguei um espelho e falei “como ela é bonitinha”. Eu tinha uma aversão tão grande ao meu corpo que eu lavava (o pênis) só para não deixar sujo. Eu dava tapas nele, xingava, não via a hora dele ir embora. Uma aversão muito grande. Isso eu consegui passar para o psiquiatra. Além da insatisfação com o sexo, eu tinha depressões terríveis. Existia um nervoso tão grande dentro de mim. E com a idade isso vai se avolumando, a ponto da equipe do ambulatório ficar preocupada comigo. E nesse tempo o HC nem sabia da existência do CRT (Ambulatório para Saúde Integral de Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids). Foi a Dra. Maria Clara, diretora do CRT, que ficou sabendo do meu caso, que tinha laudo desde 79. Ela se preocupou muito comigo e me encaminhou para o Hospital das Clínicas. Fui a primeira, a necessidade era muita. Se você ver as fotos você não acredita, estou com medo até da Playboy me procurar (risos). Sinto-me a pessoa mais feliz do mundo. Tudo aquilo que eu tinha de ruim se transformou num vale maravilhoso. Bem que me falaram que a cirurgia representava qualidade de vida. É exatamente isso.

SPressoSP – Como você vê o respeito aos transexuais de 79 para os dias atuais?

Andréia – Está bem melhor. Melhorando bastante. Eu sou de um tempo que passei pela ditadura. Eu ia presa dia sim, dia não. Por nada. Eu não era pessoa de ficar na rua se excedendo, tirando a roupa. Isso nunca foi minha praia. De tanto que eu fui presa eu tive até caso com delegado de polícia. Ele dizia que me prendia porque gostava de mim. Prendia e deixava que eu passasse vexame na rua, presa como uma bandida. Saindo do serviço, o carro encostava e me levava. Ele ficava na frente e mandava dois tiras me buscarem. Quem via achava que eu era uma marginal. Na ditadura militar valia tudo. Muitas vezes era presa para servir de comida sexual para investigador de polícia.

Uma vez eu tomei um calmante pelo nervosismo, causado pela transexualidade. Eu morava em João Neiva (ES) e fui visitar uma amiga em Vitória. Tomei um drinque com essa amiga e na hora de ir embora, cheguei no ponto de ônibus, e cai. Passou um carro com dois PMs à paisana, não sabia ainda que fossem policiais, me colocaram no carro e foram passando a mão em mim enquanto me levavam para o hospital. Quando chegamos e eles descobriram pelo documento que eu não era mulher, me pegaram pelo cabelo e bateram minha cara no chão da recepção do hospital. Pularam em cima do meu braço, que acabou quebrado. Deixaram-me lá fora e não me atenderam no Hospital da Polícia Militar, o que faço questão de falar. No dia seguinte voltei para João Neiva com o braço quebrado e lá o prefeito, que era médico, ficou sabendo da agressão e cuidou de mim. Fiquei sem poder trabalhar quase um mês. Isso tudo fizeram comigo por simples prazer ou ignorância. Não sei os motivos, mas aquilo ficou marcado profundamente em mim. Não gosto nem de lembrar. O tempo em que vivenciei minha transexualidade foi sofrimento em cima de sofrimento. Hoje, eu me sinto em cima de um trono, soberana. A cirurgia modifica sua cabeça, faz você se sentir gente. A transexualidade é uma coisa muito séria e não existem muitas explicações sobre o assunto. Ninguém está livre de ter um filho, ou filha, transexual. É a mesma coisa de uma criança nascer com um defeito físico. Mas no caso da deficiência física, existe uma comoção e para o transexual é o contrário: “Que essa bicha louca está fazendo aqui?”. O transexual é tão frágil que não consegue reagir. A única coisa que ela consegue fazer é apanhar. É preciso mais respeito. Hoje parece que as coisas estão caminhando lentamente, mas estão caminhando.

SPressoSP – Como você vê a importância de um serviço voltado especialmente aos transexuais?

Andréia – É preciso que existam mais serviços como esse (Ambulatório para Saúde Integral de Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids). O governo tinha que criar mais lugares desses. O tratamento daqui é muito superior ao tratamento que você recebe em um posto de saúde comum.

SPressoSP – Você acha que o transexual se sente mais à vontade de procurar um serviço de saúde especialmente voltado para ele?

Andréia – Aqui o transexual se sente em casa. Eu considero isso aqui como minha casa. Tenho o maior amor. O que puder fazer para ajudar eu farei. Pego transexual que desconhece o CRT e trago para cá.

SPressoSP – Como é a sua relação com seus irmãos e sobrinhos?

Andréia – Sou caçula de onze irmãos. Vivos, só tenho um irmão e uma irmã. Tenho contato com eles. Os meus sobrinhos foram aqueles que mais me apoiaram. Eles me adoram e eu também. Meu sobrinho me defendeu quando o pai dele disse que era mentira que eu virei mulher. Ele virou pro pai e disse que era verdade sim, até porque para ele eu sempre fui mulher.

SPressoSP – Quais os planos para o futuro?

Andréia – Eu quero conhecer homens interessantes, viver momentos maravilhosos, casar com um dos meus muitos pretendentes, viajar pela Europa. Enfim, começar finalmente a aproveitar a minha vida.

SPressoSP – Você poderia deixar uma mensagem para outros transexuais que passam hoje pelo que você enfrentou?

Andréia – A mensagem que eu deixo é que existe uma coisa nesse mundo que você precisa ter, a paciência. Aqui (no CRT) tem mais de 800 transexuais. A paciência faz parte do tratamento. A maioria das transexuais daqui é nova, entre 20 e 40 anos. Se não tiver isso a pessoa acaba se prejudicando. Eu sei que é muito ruim carregar a transexualidade. Você lida com ela dentro de si e com o preconceito da sociedade. Se não for paciente você vai sofrer muito mais. Quando menos se espera a cirurgia acontece. Eu fui a primeira do CRT e abri as portas para outras, agora tem outras quatro encaminhadas para o Hospital das Clínicas. É preciso ter paciência, se não você se machuca pelo caminho.

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