Copa do Mundo pode prejudicar interior



Enquanto Cuiabá receberá modernos e grandiosos viadutos, Rondonópolis – a segunda economia de Mato Grosso – emperra há mais de 12 anos na conclusão do seu único viaduto

Se por um lado a Copa do Mundo de Futebol de 2014 vem trazendo grandes benefícios em infraestrutura para a capital Cuiabá, por ouro lado, a competição pode deixar um saldo trágico e de sucateamento estrutural no interior de Mato Grosso. Municípios interioranos, inclusive Rondonópolis, já vem reclamando da falta de recursos do Estado para investimentos básicos em obras diversas, enquanto que a capital mato-grossense vem sendo contemplada com um pacote de investimentos em mobilidade urbana – federais e estaduais – nunca visto na sua história.
O foco pela concentração de recursos em Cuiabá, em detrimento do interior, ficou patente com a admissão pública, na semana passada, feita pelo próprio deputado federal Wellington Fagundes, parlamentar próximo ao governador Silval Barbosa. “Os preparativos para a Copa do Mundo estão drenando os recursos de Mato Grosso. As cidades do interior do Estado estão sendo sacrificadas”, reconheceu Fagundes, em resposta à conclusão da rodovia alternativa à BR-364, a MT-040, passando pelo Pantanal. A afirmação foi feita durante reunião com o Comitê Pró-Rodovias, formado por membros da sociedade local.
Muitos segmentos da sociedade rondonopolitana veem com preocupação essa concentração de recursos em estrutura viária em Cuiabá, principalmente diante da grande necessidade de investimentos em rodovias existente no interior – principal gerador de riquezas do Estado com o agronegócio. “A Copa do Mundo vai ter um custo para todos os cidadãos brasileiros e não será baixo. Todos nós vamos ter que pagar com mais impostos, com mais aplicação de recursos em infraestrutura em algumas localidades ligadas à Copa e com menos investimentos da máquina pública nos demais setores”, avalia o presidente da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Rondonópolis (ACIR), Edson Ferreira.
Apesar de haver prós, o empresário Edson Ferreira enfatiza que a Copa do Mundo não deixa de ter muitos pontos contra. “Espero que o saldo da Copa seja a visibilidade que o Brasil vai ter no restante do Mundo e que possa trazer retorno ao país a médio e longo prazo”, pontua o empresário. Dentro de uma visão mais política, o vereador Adonias Fernandes, do PMDB de Rondonópolis, também vê com preocupação a concentração de recursos em Cuiabá em função do evento esportivo. Nesse contexto, lembra que, nesta sexta-feira (04/05), em uma reunião com a maioria dos vereadores e o prefeito Zé Carlos do Pátio, foi colocada a necessidade do chefe do Executivo municipal convocar um encontro com o governador para discutir a falta de investimentos em Rondonópolis.
Para o vereador Adonias Fernandes, toda a classe política de Rondonópolis, incluindo representantes no Senado, na Câmara Federal, na Assembleia Legislativa, deve provocar Silval Barbosa para que canalize recursos também em obras prioritárias do município. “Temos que unir forças e mostrar a importância de Rondonópolis. Se ficarmos de braços cruzados, vai ficar tudo para Cuiabá”, alertou o vereador. Nesse sentido, ele lembrou que a Câmara Municipal criou um comitê Pró-Copa do Mundo, visando angariar dividendos para Rondonópolis diante do evento esportivo. Inclusive, pontuou que há a intenção de Rondonópolis abrigar um centro de treinamentos para o Mundial de 2014.
O presidente da União Rondonopolitana de Associações de Moradores de Bairros (Uramb), Hélio Luz, também acredita que esteja havendo uma concentração maciça dos recursos do Estado em Cuiabá. Aliás, argumentou que houve um seminário na semana passada da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM), em Rondonópolis, quando foi comentado que os recursos do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) – voltados para melhoria de rodovias e construção de casas em todo o Estado – estão sendo focados em obras de estrutura urbana em Cuiabá. Dessa forma, entende que, nesse período pré Copa, há um grande risco dos municípios do interior serem prejudicados. “Isso não é justo!”, lamenta.
Para piorar, Hélio Luz observa que os municípios, em situação normal, já recebem recursos considerados “minguados”. Ele acrescentou que o seminário da AMM também evidenciou que os municípios, de forma geral, não têm um controle fiel do rateio da distribuição de recursos entre eles. Principalmente, os municípios sem influência política e econômica acabam tendo que recorrer à intervenção da AMM. Também avaliou que se trata de uma posição do Estado muito difícil de ser mudada, diante da obrigação do cumprimento de metas para a Copa perante o Mundo.
O empresário Elmo Bertinetti, do Comitê Pró-Rodovias, critica principalmente a canalização de recursos do Fethab na capital em função da Copa do Mundo, pois se trata de um fundo formado basicamente com a riqueza agropecuária do interior. Nesse contexto, diz entender que o evento é muito importante para Mato Grosso, mas ressalta a necessidade de haver proporcionalidade na destinação dos recursos do Fethab. Ele citou o exemplo da conclusão da MT-040, estrada estadual que seria uma alívio para a BR-364, mas que o Governo do Estado alega não haver recursos para a mesma na região sul.
Conforme Bertinetti, diante da demora na destinação de recursos para o asfalto do trecho restante da MT-040, a empresa vencedora pode desistir da obra diante da defasagem de valores [o processo licitatório está concluído]. “As obras da Copa do Mundo são necessárias, mas o restante do Estado não pode ser abandonado. Estamos pagando esse peço”, enfatizou, lamentando ainda a alegação do Governo do Estado de não haver apenas cerca de R$ 150 mil para depósito para desapropriação visando a conclusão do único viaduto de Rondonópolis.

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