Tribunal de Justiça concedeu liberdade aos quatro réus, que estavam presos desde janeiro
Fernando Mellis, do R7
Parentes de vítimas repudiaram a decisão dos desembargadoresAdriana Sousa Nery/27.01.2013/Estadão Conteúdo
Após acompanhar a concessão da liberdade aos quatro acusados pela morte da filha dele, Adherbal Alves Ferreira, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), disse estar envergonhado com o Poder Judiciário. A decisão de soltar os sócios da casa noturna — Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e os integrantes da banda Gurizada Fandagueira, Marcelo dos Santos e Luciano Bonilha Leão — foi tomada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, nesta quarta-feira (29), e repudiada por quem acompanhou a sessão.
Adherbal, pai de Jennefer Ferreira, disse que jamais esperava que os quatro acusados pudessem ser soltos.
— A nossa esperança, que nós tínhamos, foi por água abaixo. A Justiça agora nos mantém para um sentido de que não existe justiça neste País.
O relator do pedido de liberdade, desembargador Manuel José Martinez Lucas, alegou que os réus não apresentam riscos à sociedade e que, após quatro meses, o clamor público teria esfriado. Os outros dois desembargadores acompanharam o voto do relator. Parentes das vítimas que participaram da audiência ficaram revoltados com a decisão da Justiça. A mãe de uma jovem morta no incêndio chegou a gritar no momento do pronunciamento.
Os acusados estão presos na Penitenciária Estadual de Santa Maria, onde deverá ser encaminhado alvará de soltura. Eles são acusados de homicídio doloso qualificado e 636 tentativas de homicídio. O incêndio em janeiro deste ano deixou 242 mortos.
Para Adherbal, a decisão foi “uma vergonha”.
— [Soltá-los], simplesmente regrediu a questão psicológica nossa. É como se nossos filhos não valessem nada. Estamos fazendo um trabalho perfeito até agora, tentando recuperar as pessoas, só que agora a Justiça decretou o caos na cidade.
Ele também lamentou não poder ter se falado com os desembargadores.
— Nós não conseguimos, o nosso advogado de defesa, nenhuma maneira de eu me manifestar no tribunal. É ridículo, é uma vergonha, é péssimo para a sociedade. Isso demonstra uma impunidade para a sociedade.
Ele também disse que parentes e amigos das vítimas e sobreviventes não vão se conformar com a decisão da Justiça.
— Dá um desânimo, mas eu vou me reunir com os advogados e com o promotor e vamos reagir, sim. Não vamos deixar impune. A situação podre que eles queriam nos passar, eles conseguiram. Realmente, deixaram a situação da cidade péssima. A responsabilidade pelo que acontecer agora é toda do Judiciário.
Feridos
No último dia 19, Mariane Wallau Vielmo, de 24 anos, morreu. Ela foi a 242ª vítima do incêndio e estava internada desde 27 de janeiro, data da tragédia. Natural de Santiago, Mariane estudava Sistemas de Informação e trabalhava com informática em uma escola.
De acordo com a assessoria de comunicação, quatro vítimas do incêndio continuam internadas no Hospital de Clínicas, em Porto Alegre. Um paciente que havia recebido alta retornou para uma avaliação e a equipe médica achou melhor interná-lo de novo.
Incêndio
O incêndio dentro da boate Kiss no centro de Santa Maria, cidade a 290 km da capital, Porto Alegre, aconteceu na madrugada de 27 de janeiro.
O fogo começou porque, durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, um dos integrantes acendeu um artefato pirotécnico — uma espécie de fogo de artifício chamado "sputnik" — que ao ser lançado atingiu a espuma do isolamento acústico, no teto da boate. As chamas se espalharam em poucos minutos.
A casa noturna estava cheia na hora que o fogo começou. Cerca de mil pessoas estariam no local. O incêndio provocou pânico e muitas pessoas não conseguiram acessar a saída de emergência. Os donos não tinham qualquer autorização do Corpo de Bombeiros para organizar um show pirotécnico na casa noturna. O alvará da boate estava vencido desde agosto de 2012, afirmou o Corpo de Bombeiros.
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