PF apura esquema de corrupção com fundos do Master que tem ex-governador e aliados como suspeitos

Entre os alvos da operação deflagrada nesta quinta-feira (6) estão o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), um desembargador e um conselheiro do CNJ
O ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União Brasil) é um dos alvos de operação da PFFoto: PREF. CUIABA/DIVULGACAO - 25.3.2
PorRenato Alves




BRASÍLIA – Fundos controlados pelo Banco Master teriam sido usados em esquema de desvio de dinheiro público em um acordo milionário do governo estadual com a telefônica Oi no Mato Grosso, aponta investigação que levou à operação da Polícia Federal nesta quinta-feira (6/8).
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O acordo investigado foi firmado em abril de 2024, durante a gestão do então governador Mauro Mendes (União Brasil). Na ocasião, o estado de Mato Grosso concordou em pagar R$ 308,1 milhões para encerrar uma disputa em que a Oi cobrava mais de R$ 700 milhões.


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Há a suspeita que a operação foi usada para o desvio de recursos públicos por meio de fundos de investimento e empresas interpostas, criadas ou utilizadas para ocultar a movimentação. A PF fala em “engenharia financeira” para que os valores chegassem a outros beneficiários finais.


A denúncia aponta que o grupo usou um sistema de “fundos em cascata” para que, ao fim, o dinheiro chegasse a empresas de Luis Antonio Mendes, filho do ex-governador, de Fábio Garcia, ex-chefe da Casa Civil, de Fernando Robério Garcia, pai de Fábio Garcia, e de outros aliados de Mauro Mendes.

Os R$ 308 milhões do acordo foram transformados em direitos creditórios, um ativo financeiro que representa o que uma pessoa terá direito a receber no futuro. O valor foi dividido igualmente entre os fundos Royal Capital e Lotte Word, ambos administrados e custodiados pelo Master, de Daniel Vorcaro.

Com os recursos em caixa, o Lotte Word passou a comprar participações em outras empresas e fundos. Entre eles, o Golden Bird e o Coliseu, que pertencem a pessoas do entorno do ex-governador Mauro Mendes.


O acordo com a Oi foi conduzido pelo então advogado Ricardo Almeida, que também teve participação nos fundos que ganharam os direitos creditórios. Ele virou desembargador do Tribunal de Justiça do Mato Grosso (TJMT), por escolha de Mauro Mendes, em novembro de 2025.
Ex-governador, deputado e desembargador investigados

Na Operação Heritage, desencadeada nesta quinta-feira, agentes buscaram provas dos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, delitos contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.

Os policiais cumpriram 25 mandados de busca e apreensão, em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. Entre os alvos estavam Mauro Mendes e o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil), indicado a vice na chapa para reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).


Também havia mandados contra o desembargador Ricardo de Almeida e o advogado Ulisses Rabaneda, conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Mauro Mendes renunciou ao cargo para concorrer ao Senado nas eleições de outubro, como manda a legislação eleitoral. Antes de ser governador do Mato Grosso, de 2019 a 2016, ele fio prefeito de Cuiabá, a capital do estado.

Além das buscas e apreensões, foram determinados o bloqueio e a indisponibilidade de bens dos investigados no limite aproximado de R$ 316 milhões, a quebra dos sigilos bancário e fiscal, o recolhimento de passaportes e a proibição de contato entre eles.

Ordens judiciais partiram do ministro Flávio Dino

As ordens judiciais foram expedidas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de representações do ex-governador Pedro Taques (PSB), adversário de Mendes na disputa ao Senado. Dino mantinha a decisão sob sigilo até a mais recente atualização deste conteúdo.

Antes do pedido de uma investigação por parte de Taques, a deputada estadual Janaina Riva (MDB) encaminhou informações à Polícia Federal e ao Ministério Público, em 2025, sobre o acordo do governo do estado com a telefônica.

Ela questionou a escolha dos fundos, o valor pago, a ausência de precatório e os possíveis vínculos dos beneficiários com agentes políticos. O Ministério Público de Mato Grosso abriu procedimento em maio de 2025 para apurar a devolução dos R$ 308 e a possível destinação do dinheiro a fundos relacionados a agentes públicos ou familiares.


Pedro Taques também apresentou denúncia e ajuizou uma ação popular. Ele questionou a diferença entre o valor pago pelo escritório para adquirir o crédito e os R$ 308 milhões desembolsados pelo Estado. A ação popular foi arquivada em abril de 2026 por “inadequação do instrumento jurídico”.

A decisão não encerrou as apurações criminais nem analisou todas as suspeitas agora investigadas pela PF.
Ex-governador não se manifesta sobre operação

A assessoria de Ulisses Rabaneda disse que a investigação da PF mira sua atuação como advogado no Caso Oi, sem relação com a função como conselheiro do CNJ. Ele ainda afirmou que os valores recebidos são referentes a honorários advocatícios devidamente previstos em contrato.


“No caso, atuei de forma técnica, regular e dentro das prerrogativas asseguradas à advocacia. Todo o trabalho foi realizado com observância da legislação, dos procedimentos aplicáveis e dos deveres profissionais. Reafirmo a legalidade de todo o processo relacionado ao acordo firmado”, disse em nota.

Já a Procuradoria Geral de Mato Grosso (PGE-MT) afirmou, também em nota, “que confia nas investigações da Polícia Federal e irá contribuir com tudo o que for requerido. A PGE aguarda com naturalidade o desdobramento da investigação, pois acredita que o caso será totalmente esclarecido”. A instituição não explicou os pontos questionados pelos investigadores nem se manifestou sobre a destinação do dinheiro após o pagamento.

Os demais alvos e as assessorias da Oi e do Master não se manifestaram sobre a operação até a última atualização desta reportagem. (Com Estadão Conteúdo)

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