Como levar a Matemática mão na massa para a escola

 Práticas investigativas, materiais simples e situações do cotidiano aproximam a disciplina da realidade dos alunos e tornam a aprendizagem mais significativa

PorCarol Firmino

Para que a proposta vá além do uso de materiais, é preciso definir um desafio relacionado ao currículo, acompanhar as hipóteses dos estudantes e ajudá-los a transformar o que descobriram em registros, procedimentos e conceitos. Foto: Getty Images

Os resultados mais recentes das avaliações nacionais e internacionais mostram que as dificuldades em Matemática se acumulam ao longo da Educação Básica. No Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2025, 50,6% dos estudantes do 5º ano da rede pública alcançaram apenas o nível considerado adequado na disciplina. No 9º ano, a proporção caiu para 18,8% e, no fim do Ensino Médio, chegou a 8,5%, segundo levantamento do Todos Pela Educação. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, somente 28% dos brasileiros de 15 anos atingiram ao menos o nível 2 de proficiência em Matemática, considerado o patamar básico pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na média dos países da organização, esse índice foi de 65%.

Os números ajudam a dimensionar um problema que não se resolve apenas com mais aulas teóricas e listas de exercícios. Para aproximar os conteúdos dos estudantes e desenvolver o raciocínio lógico, as escolas têm apostado em propostas nas quais a turma manipula materiais, investiga situações, testa estratégias, discute os caminhos percorridos e, depois, relaciona a experiência aos conceitos e à linguagem matemática.

É o que se costuma chamar de “Matemática mão na massa”. A expressão, no entanto, não deve ser confundida com uma aula apenas divertida ou com o uso de objetos sem intencionalidade pedagógica. Verônica Gomes, diretora de Implementação e Parcerias com Redes de Ensino do Instituto Escolas Criativas, explica que os materiais devem oferecer apoio tátil e visual para que os alunos experimentem grandezas, dimensões, proporções e padrões. Por exemplo, papel quadriculado, milimetrado e papel metro, peças de EVA, MDF ou papelão, palitos de sorvete, ingredientes e utensílios usados em receitas culinárias e jogos impressos para recortar e montar. A prática precisa avançar da manipulação para a investigação e, por fim, para a sistematização do conhecimento.

“No todo, a manipulação qualifica a base, a investigação mobiliza a criação e a sistematização fecha o ciclo”, resume Verônica. Isso significa que o professor não entrega o conceito pronto nem abandona a formalização. Ele propõe um desafio, acompanha as hipóteses e ajuda a turma a traduzir o que descobriu em registros, procedimentos, fórmulas e técnicas.

Primeiro a experiência, depois o conceito

Giuliana Amorim de Jesus, professora de Matemática da EM Arnaldo Souza Prado, em Mata de São João (BA), leciona há 19 anos. Para ela, uma atividade mão na massa rompe com a lógica de copiar o conteúdo e responder automaticamente. Os estudantes recebem materiais e situações-problema que os levam a construir o conceito por etapas.

Ela conta que uma experiência realizada com o 6º ano partiu das dificuldades da turma com fração. Em três aulas, Giuliana utilizou o material dourado para trabalhar fração como parte de um todo, representação fracionária, divisão, multiplicação, proporcionalidade e resolução de problemas. Inspirado no método Montessori, o material dourado é formado por peças que representam unidades, dezenas, centenas e milhares e ajudam a visualizar diferentes relações entre quantidades.

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