Do computador à IA: a tecnologia é a bala de prata da Educação?

 Após quatro décadas de promessas, escolas enfrentam a chegada da IA com uma lição: tecnologia precisa vir acompanhada de formação, planejamento e intencionalidade pedagógica

PorDimítria Coutinho

Com a expansão da Inteligência Artificial, a Educação vive mais uma onda de promessas de transformação. Para que a IA contribua de fato para a aprendizagem, especialistas defendem formação docente, apoio técnico, políticas públicas baseadas em evidências. Foto: Getty Images

Em 1986, a NOVA ESCOLA chegou às salas dos professores pela primeira vez. Quarenta anos depois, revisitamos capas que marcaram a história da Educação brasileira para perguntar: o que mudou desde então? Nesta série especial, cada reportagem parte de uma edição histórica da revista para investigar avanços, permanências e os desafios que seguem no centro do trabalho docente.

Na quarta reportagem, revisitamos a trajetória da tecnologia na Educação — do computador que chegou às escolas nos anos 1980 à Inteligência Artificial que hoje bate à porta das salas de aula. Ao longo de quatro décadas, laboratórios, internet, lousas digitais, tablets e celulares foram apresentados como caminhos para transformar o ensino. O que essa história revela sobre as promessas, os desafios e as condições necessárias para que a tecnologia de fato contribua para a aprendizagem?

Mais de oito em cada dez escolas brasileiras têm acesso à internet para uso dos alunos, de acordo com a pesquisa TIC Educação 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). O levantamento mostra ainda que 53% dos gestores escolares utilizam Inteligência Artificial (IA) generativa em suas atividades.

A presença da tecnologia nas escolas é resultado de um processo que atravessa décadas. Desde o início do século XX, recursos como rádio, cinema e televisão já eram incorporados, de diferentes formas, às práticas educacionais. Foi, porém, na década de 1980 — período em que a revista NOVA ESCOLA foi fundada — que ganhou força no Brasil a chamada informática educacional, marcando a entrada dos computadores no debate sobre o futuro da escola.

De lá para cá, cada nova tecnologia chegou acompanhada de expectativas de transformação. O computador prometia revolucionar a educação. Anos depois, a internet renovou essa aposta. Vieram as lousas digitais, os tablets e os celulares. Agora, é a vez da Inteligência Artificial. “A cada nova tecnologia, percebemos dois movimentos na Educação: primeiro, medo; depois, a expectativa de melhora na aprendizagem”, comenta Roberta Freitas, especialista em Tecnologia e formadora de professores.

Para ela, a experiência acumulada ao longo dessas décadas ajuda a colocar as promessas atuais em perspectiva. “Dizem que aquilo vai ser a salvação da sua sala de aula e vai resolver todos os problemas. Quem está na sala de aula já passou por muitos movimentos desses e vimos que não é bem assim. A tecnologia não vai simplesmente chegar e resolver tudo se não houver intencionalidade pedagógica”, completa.

Computador: o início de tudo

Na década de 1980, os computadores começaram a chegar às escolas brasileiras de forma ainda pontual. “Não era todo mundo que tinha acesso. Os equipamentos eram muito caros. Na minha escolarização, por exemplo, tive acesso aos computadores somente na década de 1990”, lembra Débora Garofalo, especialista em inovação educacional.

Mais do que introduzir novos equipamentos, esse período também marcou avanços na reflexão sobre como a tecnologia poderia ser incorporada à educação. Entre os pesquisadores pioneiros nesse campo no Brasil estão Léa Fagundes e José Valente, que investigaram as possibilidades da informática educacional no contexto escolar.

Os pesquisadores defendiam que o computador não deveria servir apenas para reproduzir aulas e transmitir conteúdos, mas também criar oportunidades para que os estudantes investigassem, experimentassem e construíssem conhecimento. O professor, por sua vez, permanecia como mediador do processo, responsável por planejar e dar sentido pedagógico ao uso da tecnologia.

Paulo Blikstein, professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, explica que a informática aplicada à educação sempre teve duas grandes vertentes. A primeira consistia em apenas digitalizar cursos e metodologias existentes, permitindo a Educação à Distância (EAD) — é o que se observava com os telecursos, por exemplo.

Já a segunda consistia na informática educacional que, inspirada pelo construtivismo, propôs o uso da tecnologia para ensinar novos conteúdos. “Não é simplesmente colocar uma aula tradicional em uma plataforma, mas usar a tecnologia como uma matéria-prima para os alunos criarem e aprenderem coisas novas, como programação e robótica”, explica Paulo.

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